O mercado da prata no início de 2026 tem sido histórico: uma alta parabólica que levou os preços a máximas históricas acima de US$ 120/oz, seguida de uma das maiores quedas em um único dia da história em 30 de janeiro de 2026 (queda de ~30%), com divergências persistentes entre os preços “de papel” do Ocidente e a demanda física no Oriente. O que não faltou nesse mês de janeiro foi volatilidade e especulação. Outro dado mais sutil chamou minha atenção: sorrateiramente, a CME (via Comex, a controladora dos futuros de metais nos EUA) vem tentando salvar sua reputação e, junto, também ajudar, indiretamente, um dos maiores bancos do mundo. Será que vai dar certo?

Chart com candles diários do contrato futuro contínuo da prata, 10am – 31.jan.2026
Tenho principalmente alguns objetivos com esse artigo:
Espero que, ao final da leitura, cada um chegue às suas conclusões e que também se interesse em acompanhar esse movimento que se passa no mundo dos metais. O mês de março está próximo, e poderemos ter mais um capítulo nebuloso da história de gigantes do mundo financeiro desvendado – ou não, e “tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes”
OBS - Falaremos de prata nesse artigo, mas o contrato futuro do ouro também apresentou um movimento único, muito raro, neste mês de janeiro

Chart com candles diários do contrato futuro contínuo do ouro, 10am – 31.jan.2026
A COMEX é a principal bolsa de valores para a negociação de contratos futuros e opções de metais preciosos e industriais nos Estados Unidos. As negociações com a prata envolvem 2 contratos, sendo o maior deles o de símbolo SI e cada contrato equivale a um nocional de 5,000 onças de prata. O que nos interessa aqui é descrever o vencimento dos contratos e o processo de liquidação. Se você quiser saber mais informações sobre isso pode buscar diretamente no site da CME, acessando o link abaixo.
https://www.cmegroup.com/markets/metals/precious/silver.html
Nos contratos futuros de metais preciosos (como a prata), os contratos podem ir para entrega física (transferência de warrants de metal em cofres aprovados) em vez de liquidação em dinheiro ou rolagem de posições. Os relatórios diários “Issued and Stops” detalham esse processo:
Veja um exemplo deste relatório do dia 30 de janeiro de 2026

Os totais de issued e stopped devem se equilibrar (todo aviso tem um comprador (long) e um vendedor - short). Este é o relatório específico de aviso de entrega para o contrato de fevereiro de 2026 COMEX 5000 Silver Futures (data de intenção: 30 de janeiro de 2026; entrega: 3 de fevereiro de 2026; preço de settlement: US$ 78,29/oz)
Note que o JP Morgan foi o principal issuer (633 contratos) com várias firmas (outros bancos) com quantidades stopped menores, totalizando os mesmos 633 contratos no dia (acumulados no mês são 2.514). Para acessar o formato oficial, consulte os relatórios diários Metals Issues and Stops no site cmegroup.com/deliveryreports.
Na prática funciona da seguinte forma:
- issued = são players que estão short, na liquidação precisam suprir a prata aos compradores, pelo valor do settlement (no caso, $78.29/oz)
- stopped = são os players que estão long, na liquidação vão receber a prata tendo que pagar ao vendedor $78.29/oz
A prata subiu mais de 170% no acumulado de 12 meses até janeiro de 2026, impulsionada por vários fatores, entre outros:
Os preços atingiram máximas históricas no dia 29 de janeiro de 2026 ($121.785/oz), mas, em 30 de janeiro, somente um dia depois, os futuros da Comex despencaram em ~25-31% (fechando entre US$ 78.53/oz, com mínimas intradiárias próximas de US$ 74). Mesmo assim, após o fechamento e durante o horário pós-closing principal (4pm), os preços voltaram a subir um pouco.
Veja abaixo o último preço do contrato de março:

A desculpa principal para o gatilho de venda veio da parte macroeconômica: a nomeação de Kevin Warsh por Trump (vista como preservação da independência do Fed) fortaleceu o dólar, desencadeando a venda de ativos de risco, a realização de lucros após o topo parabólico e liquidações em cascata por chamadas de margem em posições alavancadas compradas. Isso apagou grande parte dos ganhos de janeiro, mas a prata ainda terminou o período significativamente positiva no ano. Mas essa história, para quem acompanha o mercado há muito tempo, não colou: tem muito mais por trás do que uma simples indicação do novo chairman para o Fed.
Mesmo sabendo que o dia 31 foi terrivelmente bearish para a prata, algo chamou a atenção: surgiu uma diferença gritante entre os preços “de papel” da Comex e os mercados físicos/asiáticos:
Esse prêmio reflete a verdadeira escassez física na China (maior consumidora e importadora do mundo), onde compradores industriais pagam caro em meio à falta de oferta. A arbitragem por lá está bloqueada por questões de logística, regulamentações e restrições de exportação, permitindo que a desconexão persista.
Historicamente, prêmios sustentados altos em Xangai (ex.: US$ 7/oz em 2011, US$ 8-14/oz no final de 2025) precederam altas globais à medida que os preços ocidentais “se alcançavam”. O extremo atual sugere um aperto subjacente apesar da queda — o que é potencialmente um viés de alta para rebounds de preços.
Vamos agora lembrar de um outro detalhe importante que precisa ser lembrado: os estoques de prata da Comex são divididos em:
A depleção rápida (20-30% no acumulado de janeiro) veio por conta das reclassificações (ex.: mais de 3M oz movidos do total registered em 29 de janeiro comparado ) e retiradas para demanda física. Níveis baixos de prata registered aumentam o risco de squeeze: se os longs exigirem entrega, os shorts precisam obter o metal, podendo empurrar os preços para cima.
Esse último relatório citado está mostrado abaixo: mais 3 milhões de onças troy foram removidas da listagem registered (que é o disponível para entrega):

Os futuros da Comex são entregues fisicamente - embora a maioria dos bancos role ou feche posições se tiver muito exposto a prejuízos de curto prazo. A entrega envolve transferência de warrants, principalmente. O que aconteceu:
O contrato de Março 2026 (que é o contrato ativo no momento) tem alto open interest (~92.000-98.000 contratos, ~460-490M oz de exposição) só que os estoques registered estão muito baixos. O primeiro dia de aviso para o delivery é 27 de fevereiro e as entregas começam em 2 de março. Mesmo com deliveries modestos (10-20%) podemos ver uma pressão nos cofres, com analistas alertando para uma possível “crise de entrega” ou intervenções (aumentos de margem, liquidações em dinheiro).
Nesta última semana mais um fato interessante: após a onda de vendas da última sexta feira a CME publicou novamente uma medida de aumento das margens para os contratos futuros em ouro e prata. Já são 4 aumentos de margem em menos de 2 meses. Abaixo são os valores de margem que valem a partir de 02 de fevereiro de 2026.

Por que fazer isso no final do dia 30 e não depois do pregão no dia 29, quando a prata já havia flutuado em $15? Esse movimento diário, por si só, já seria motivo para intervir e evitar mais volatilidade na sexta, que seria o último dia para o fechamento dos contratos do mês.
Indo agora para refletir sobre o que houve no dia 30 de janeiro. Por que a CME/Comex não agiu antes, no meio de um dia turbulento? A Comex tem vários mecanismos de interrupção dos negócios quando a volatilidade e o desvio de preços são excessivos. Por que não fez nada durante o dia e deixou a prata cair livremente até -30%?
Deixo com você a interpretação de mais esse fato “estranho” em termos de timing: somente depois que o JP Morgan fechou suas posições short no menor preço do dia, a CME se posicionou. Coincidência? Pode ser, mas eu desconfio dessas coincidências sempre. Devemos lembrar que essas práticas “estranhas” não são novidade no JP Morgan; em outras ocasiões, eles já confessaram que algumas coisas erradas aconteceram com algumas “práticas de trading” por lá. E tiveram que pagar uma multa quase bilionária, na época, a maior multa aplicada a um banco que tem, no trading, parte do seu business.

Print screen da notícia liberada pela CNBC no dia 23 de setembro de 2020, quando o JP Morgan fez um acordo para pagar quase 1 bilhão de dólares para se livrar de punições maiores, por violar as regras do mercado de metais e treasuries (especificamente por conta de spoofing)
https://www.cnbc.com/2020/09/23/jpmorgan-to-pay-almost-1-billion-fine-to-resolve-us-investigation-into-trading-practices.html
Os problemas atuais na Comex são óbvios:
Esses pontos (e muitos outros que são mais especulativos, como a “ajuda” aos bancos bullions) ameaçam seriamente a credibilidade da bolsa como um mercado confiável para metais preciosos. Historicamente, eventos semelhantes já abalaram essa credibilidade. A tentativa de squeeze impulsionada pelo Reddit em 2021 ou a alta de 2011 já geraram críticas sobre a manipulação de preços via papéis, onde reivindicações "de papel" superam em muito o metal disponível para entrega (às vezes em uma proporção de 100:1 ou mais).
Se os estoques registered caírem abaixo de 100 milhões de onças e as entregas em março atingirem níveis recordes (como os ~70-90 milhões de onças projetados em cenários de estresse), a CME (dona da Comex) pode recorrer a intervenções extremas, como alterações de regras emergenciais, aumentos drásticos de margens (já ocorridos múltiplas vezes em janeiro, elevando custos para 15-20% ou mais) ou forçar liquidações em dinheiro ao invés de entrega física. Essas medidas, embora visem evitar inadimplências, podem ser vistas como "manipulação" para proteger grandes shorts (como bancos), erodindo a confiança de investidores e usuários industriais.
Analistas já alertam para um "funeral da Comex" em cenários graves, onde a perda de credibilidade poderia levar a migrações para bolsas alternativas (como a Shanghai Gold Exchange), aumento de prêmios físicos globais e até investigações regulatórias pela CFTC. No longo prazo, isso poderia enfraquecer o papel da Comex como benchmark global para preços de prata, especialmente com a crescente influência da Ásia em metais estratégicos.
A Comex e a CME têm um histórico de intervenções “legais” mas imorais em momentos de alta volatilidade ou risco de squeeze na prata, frequentemente criticadas por supostamente protegerem shorts institucionais:
Devemos lembrar que Março costuma ser um mês de alto volume de entregas na Comex devido a fatores sazonais (por exemplo, reabastecimento industrial após o primeiro trimestre).
Aqui estão alguns exemplos antigos de outros vencimentos:
Outros precedentes que podem ser criados incluem suspensões de negociação (como na LME com o nickel em 2022, com cancelamento de trades) ou forçar um cash settlement se tiver crises de entrega, o que compromete em muito a confiança na entrega física.
Lembre dos padrões gerais desse mercado: as entregas raramente excedem 10–15% do open interest (OI), mas em squeezes ou períodos de alta demanda física, o volume pode disparar. O volume de 2025 foi impulsionado pela demanda física real da China/Índia, similar ao que vemos agora em 2026. Se março de 2026 igualar ou superar esses níveis (com OI atual muito mais alto, ~92.000–98.000 contratos), poderia pressionar ainda mais os cofres, agravando a drenagem de estoques registered e aumentando o risco de intervenções da CME. Por exemplo, a JP Morgan, frequentemente um issuer líquido, entregou ~2–3 milhões de onças líquidas em relatórios de final de janeiro de 2026, ilustrando como grandes players gerenciam (ou contribuem para) essa pressão.
O JP Morgan é o banco que domina a prata na Comex (como operadora de cofres e custodiante de ETFs como SLV, por exemplo). Aqui alguns padrões históricos:
As estimativas variam bastante e são especulativas, pois a CFTC não nomeia indivíduos:
Os analistas da JPMorgan preveem prata na média de ~US$ 56/oz em 2026 (visão bearish), mas o aperto físico pode contrariar isso. São essas análises que geram mais dúvidas ainda: porque um banco seria tão pessimista com um metal que está em clara falta de estoque, num mundo onde a demanda por prata só vai aumentar?
A queda parece ser um “reset” (liquidação de longs muito alavancados, resfriamento da especulação), mas os fundamentos seguem favoráveis a subida de preço: déficits estruturais, demanda industrial, prêmios em Xangai, estoques registered baixos.
A próxima semana (reabertura pós-fim de semana) pode trazer tentativas de recuperação se Xangai se mantiver firme e os shorts forem cobertos (short squeeze continuará neste caso). Os riscos incluem mais aumentos de margem, ventos macro contrários (dólar forte) ou intervenções se a pressão de entrega aumentar.
A volatilidade da prata é lendária em setups superaquecidos — sugerimos acompanhar os estoques da Comex, relatórios de entrega (diários no site da CME) e os prêmios em Xangai para pistas. Isso não é conselho financeiro; e com essa volatilidade os mercados podem oscilar muito ainda.
Façam as suas análises e continuem pensando criticamente. Estamos vivendo um momento único nesse mercado. Todo cuidado é pouco.
Rogerio DaSilva, o Doc
31 de janeiro de 2026
Naples, FL - EUA
X @DocRoger